Como fazemos a curadoria
Esta página explica, sem jargão, como transformamos votações do Congresso em um número que diz o quanto uma pessoa eleita apoia uma ideia. É um texto aberto a críticas: se você achar um erro, o erro provavelmente é nosso.
Números conferidos no banco em 22 de agosto de 2026.
1. O que o site faz, e o que ele não faz
O que ele faz: mostra como cada deputado e cada senador votou, junta votações por assunto e resume isso num rótulo simples, do tipo "Quase sempre a favor".
O que ele não faz: dizer se um voto foi certo ou errado. Não avaliamos projetos, não damos nota a ninguém e não recomendamos voto.
O que ele mede, exatamente: o quanto uma pessoa votou de acordo com um conjunto específico de votações que nós escolhemos. Isso não é a mesma coisa que a opinião dela sobre o tema. Alguém pode defender a reforma agrária e ainda assim votar a favor de um projeto que restringe ocupação de terra. O número mede votos, não convicções, e essa é a limitação mais importante do site.
2. De onde vêm os dados
Tudo vem dos sistemas oficiais da Câmara dos Deputados e do Senado Federal. Não digitamos nada à mão, não usamos notícia como fonte e não adivinhamos voto que não esteja publicado.
| Votações registradas | 5.542 |
| Dessas, votações com o voto de cada um | 3.427 |
| Dessas, as que aconteceram no plenário | 2.821 |
| Votos individuais | 795.015 |
| Deputados e senadores | 1.063 |
| Período coberto no Senado | 26/02/2019 a 13/08/2026 |
| Período coberto na Câmara | a partir de 2020 |
Votação nominal é o nome oficial da votação em que o painel registra quem votou o quê. Nas outras, só se sabe o resultado geral, "aprovado por acordo", e não há como saber a posição de cada pessoa. Usamos só as nominais.
Sexo vem da fonte e só tem duas opções. Câmara, Senado e TSE registram apenas masculino ou feminino. Por isso o filtro do site oferece "todos", "só mulheres" ou "só homens": não é escolha nossa, é o que existe no registro oficial. Não inventamos categoria que a fonte não publica, do mesmo jeito que não adivinhamos voto. Hoje são 196 mulheres entre 1.063 parlamentares, ou 18,4%.
3. O que é uma “política” aqui
Uma política é uma frase que dá para apoiar ou rejeitar, ligada a um conjunto de votações sobre aquilo. Por exemplo: "Investimento na educação pública", "Legalização dos jogos de azar".
O teste que aplicamos a cada nome é simples: dá para ser a favor ou contra esta frase? Se o nome precisa de um "e" para caber tudo o que está dentro, geralmente são duas políticas disfarçadas de uma.
O erro que nos ensinou isso
Tínhamos uma política chamada "Endurecimento das penas". Ao revisar, vimos que ela juntava três assuntos diferentes: pena maior para furto e roubo; pena maior conforme quem é a vítima (agressão a profissional de saúde, homicídio de policial); e porte de arma proibida.
Uma pessoa pode defender pena maior para quem mata policial e ser contra endurecer a pena de furto, sem nenhuma contradição. Somando tudo num número só, produzíamos um resultado que não descrevia ninguém. Tiramos a política do ar em 29/07/2026.
A lição foi sobre ordem: primeiro se define o assunto, depois se procuram as votações. Quando se parte das votações encontradas e só depois se pergunta "o que isso tem em comum?", o assunto sai borrado. Foi exatamente assim que aquela política nasceu torta.
4. Como escolhemos as votações
Das 3.427 votações com voto individual, usamos 83. É pouco de propósito, e vale explicar o que fica de fora.
Sai automaticamente
Votação de comissão. Comissão é um grupo menor de parlamentares que analisa o projeto antes do plenário. Só os membros votam ali. Se contássemos, todo o resto do Congresso apareceria como faltoso em algo que não podia votar. São 606 votações de comissão na nossa base, e o cálculo descarta todas sozinho.
Votação secreta. São 556. O painel registra que a pessoa votou, mas não revela em quê. Sem o voto, não há posição a mostrar.
Sabatina de autoridade no Senado. Aprovação de embaixador, de ministro de tribunal, de diretor de agência. Não é posição sobre política pública.
Votação só de procedimento. Registros do tipo "Aprovado o Requerimento", sem dizer do que se trata. Só entram quando conseguimos verificar o que estava em jogo.
Requerimento de urgência entra, e com o mesmo peso de uma votação de mérito. Urgência é o pedido para um projeto furar a fila e ir direto ao plenário. Na prática da Câmara, votar a urgência costuma ser o sinal político mais claro que existe. Às vezes o mérito nem chega a ser votado com registro de nomes. É uma escolha discutível, e assumimos que é.
5. O que significa “a favor”
Cada votação ligada a uma política recebe uma direção: votar SIM apoia a política, ou votar NÃO apoia a política. O segundo caso acontece quando o projeto enfraquece aquilo que a política defende.
Exemplo: numa política sobre rigor no licenciamento ambiental, se as votações são de projetos que afrouxam esse rigor, então quem votou NÃO é quem defende o rigor.
Por que isso dá tanto trabalho
As descrições oficiais costumam ser opacas. Três casos reais que quase nos enganaram:
"Mantido o texto. Sim: 316; Não: 110." Sozinha, a frase não diz nada. Fomos à fonte: era um pedido para suprimir o artigo que autoriza licitação exclusiva para a indústria de saúde instalada no país. Votar SIM era manter o artigo.
"Mantido o texto. Sim: 285; Não: 106." Outro projeto. O pedido era suprimir a palavra "pública" de um trecho, o que decidia se a compra de hemoderivados ficaria amarrada ao produtor público.
"Rejeitado o Requerimento. Sim: 55; Não: 212." Íamos descartar por parecer procedimento. Era um pedido de retirada de pauta: votar SIM era tirar o projeto da pauta, ou seja, obstruir. Registramos com a direção invertida, e é uma das votações mais informativas do conjunto.
Hoje, toda votação cuja descrição não se explica sozinha é conferida contra a fonte antes de entrar.
6. Nem toda votação vale o mesmo
| Peso 25 | votação decisiva, normalmente a aprovação final |
| Peso 10 | votação comum |
| Peso 4 | votação quase unânime, aplicado automaticamente |
Se 95% ou mais dos votos foram para o mesmo lado, o peso cai para 4 sozinho. Uma votação aprovada por 470 a 1 quase não distingue ninguém: saber que alguém acompanhou uma maioria esmagadora informa pouco. Mas não descartamos, porque ela diz muito sobre a minoria que votou contra a corrente.
Esse corte não foi escolhido no chute: na nossa base existem votações com 96%, 97%, 99% e 100% de um lado, e nada entre 91% e 94%. O vazio está ali.
Numa revisão, descobrimos que 5 das 8 votações quase unânimes estavam marcadas como decisivas, com peso 25. As menos informativas pesavam duas vezes e meia mais que as disputadas. A regra automática corrigiu isso e impede que volte a acontecer. O peso que o cálculo realmente usou aparece no site, mesmo quando é menor do que a curadoria tinha marcado.
7. Como o número é calculado
- Para cada votação da política, comparamos o voto da pessoa com a direção definida.
- Concordou: o peso conta inteiro, a favor.
- Discordou: o peso conta inteiro, contra.
- Não votou: conta com 20% do peso, e metade disso como concordância. Faltar puxa o número para o meio, mas não é tratado como discordar.
- Com menos de 2 votações decisivas, mostramos "Sem votos suficientes" em vez de um número que não se sustenta.
Um exemplo com números
Uma política com três votações: uma decisiva (peso 25) e duas comuns (peso 10). Um deputado vota a favor na decisiva, contra numa comum e falta na outra.
Decisiva, concordou: 25 a favor de 25. Comum, discordou: 0 de 10. Comum, faltou: o peso vira 2, e conta 1 a favor.
Total: 26 de 37, ou 70 na escala, que é o rótulo "Geralmente a favor".
| 95 ou mais | Sempre a favor |
| 85 a 95 | Quase sempre a favor |
| 60 a 85 | Geralmente a favor |
| 40 a 60 | Às vezes |
| 15 a 40 | Geralmente contra |
| 5 a 15 | Quase sempre contra |
| 5 ou menos | Sempre contra |
O número tem casas decimais: 84,7 continua sendo "Geralmente a favor". Quando cai exatamente em 95, 85 ou 60, vale o rótulo de cima; em 40, 15 ou 5, vale o de baixo.
8. Um projeto não serve a duas políticas
Se o mesmo projeto aparece em duas políticas, em geral é sinal de que uma delas está usando aquilo como enchimento. Aconteceu: um projeto sobre registros de terra em faixa de fronteira estava ligado tanto à política de terras indígenas quanto à de reforma agrária. É titulação de terra, não demarcação. Tiramos da primeira, e hoje cada votação usada pertence a uma política só.
9. O caso dos senadores
Das 17 políticas, apenas 4 têm votação no Senado. As outras foram votadas só na Câmara, porque muitos desses projetos estão parados no Senado até hoje.
Durante um tempo o site mostrava as 17 políticas no perfil de um senador, com a maioria marcada como "Sem votos suficientes", o que dava a impressão de que ele faltou, quando na verdade nunca houve votação. Corrigimos. É o mesmo princípio da exclusão das comissões: nunca confundir “não quis votar” com “não podia votar”.
10. Como corrigimos erros
Não editamos em silêncio. Quando uma política sai do ar ou muda de recorte, o motivo fica registrado com data, inclusive as votações que decidimos não usar, e por quê.
Em um único dia de revisão, isto mudou: uma política retirada do ar por misturar assuntos; uma política dividida em duas; um projeto removido de uma política por estar em duas; uma votação de comissão excluída; oito votações quase unânimes rebaixadas de peso; e cinco políticas renomeadas.
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Este site é um projeto independente, sem fins lucrativos, e tem muito mais trabalho do que mãos. Se você gosta de política e quer ajudar, tem espaço.
Não precisa ser programador. O que mais falta é gente para ler votação por votação e dizer o que cada projeto realmente muda na vida das pessoas, encontrar temas importantes que ainda não viraram política aqui, revisar os textos para que fiquem claros para quem não acompanha o Congresso, e apontar erro quando encontrar.
Quem conhece o funcionamento do Congresso pode ajudar também nas decisões de método. Estas são as que mais rendem discussão:
- Requerimento de urgência deve pesar igual a uma votação de mérito?
- 20% é o peso certo para quem não votou? Deveria ser zero, ou mais?
- O corte de 95% para rebaixar votação quase unânime está no lugar certo?
- Faz sentido exigir no mínimo 2 votações decisivas para publicar um número?
- Alguma política atual mistura assuntos que deveriam estar separados?
Escreva para contato@elesvotamporvoce.org, contando o que te interessa e quanto tempo você teria. Erro apontado com fonte é corrigido e registrado.
Uma explicação mais curta do método está em Sobre o site.